Fontes naturais de beleza e poesia
“Andamos por aí vendo o ribeiro, o qual é de muita água e muito boa”. Na carta ao Rei D. Manuel, Pero Vaz de Caminha descreve as belezas da terra em que tinha chegado há pouco. Nem ouro, nem prata, ou qualquer outro metal. O encantamento de Caminha provinha de outras fontes de riqueza. “Águas são muitas; infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem! (...) Hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500”. Embora escrita por um português, essa é a primeira literatura que descreve a abundância das águas na então chamada Ilha de Vera Cruz.
E os escritores brasileiros falaram das águas em vários momentos, ora elogiando a fartura, ora discorrendo sobre a escassez e ora fazendo uma crítica social. O Brasil exuberante foi detalhado durante o período literário chamado Romantismo, no século XIX. Segundo a professora Therezinha da Silva Fernandes, como a Proclamação da Independência havia acabado de acontecer, a Literatura brasileira precisava mostrar para o mundo um país livre e abundante com seus rios e cachoeiras. No livro “O Guarani”, a região da Serra dos Órgãos, Rio de Janeiro, foi escolhida por José de Alencar e o rio Paquequer aparece como fator encantador da paisagem tropical brasileira. “Lança-se rápido sobre o seu leito, e atravessa as florestas como o tapir, espumando, deixando o pêlo esparso pelas pontas do rochedo, e enchendo a solidão com o estampido de sua carreira. De repente, falta-lhe o espaço, foge-lhe a terra; o soberbo rio recua um momento para concentrar suas forças, e precipita-se de um só arremesso, como o tigre sobre a presa”.
Já em “Macunaíma”, Mário de Andrade faz um uso diferente da natureza brasileira. Agora é uma visão mais crítica que vai aparecer. “A água tem uma função mágica. O personagem Macunaíma sai da região amazônica, depois de ter nascido “um índio retinto” e vem para São Paulo, a civilização. Ao passar pela água mágica torna-se branco”. A professora de literatura conta que essa é a grande metáfora da formação do povo brasileiro. “Macunaíma tem em si mesmo as três etnias da formação do nosso povo: o índio, o negro e o branco”.
Mas assim como a fartura é descrita, também há a crítica social em “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos. “Como outros autores da época, ele pretendia fazer a denúncia dos problemas nordestinos, incluindo a seca, que mais do que um fator de clima, é um caso de vontade política, pois a ajuda do poder público aos flagelados nunca chegou até eles, assim como uma solução definitiva. Não é nada diferente do que acontece hoje, infelizmente”, afirma Therezinha.
São Paulo também é retratado com crítica às condições de vida da sociedade. A professora conta que no livro “O cortiço”, Aluísio de Azevedo tem a intenção de mostrar o Determinismo, isto é, quer evidenciar que o homem tem seu comportamento determinado pelo meio em que vive, pelo momento histórico e pela carga genética que traz. “Nessa obra, com tantas pessoas vivendo aglomeradas, servindo-se de uma única “bica” (torneira) para a higiene pessoal e também para os afazeres domésticos, cria-se um ambiente promíscuo, que vai refletir no comportamento promíscuo dos habitantes do cortiço”.
“Daí a pouco, em volta das bicas era um zunzum crescente; uma aglomeração tumultuosa de machos e fêmeas. Uns, após outros, lavavam a cara, incomodamente, debaixo do fio de água que escorria da altura de uns cinco palmos. O chão inundava-se. As mulheres precisavam já prender as saias entre as coxas para não as molhar; via-se-lhes a tostada nudez dos braços e do pescoço, que elas despiam suspendendo o cabelo todo para o alto do casco. Os homens, esses não se preocupavam em não molhar o pêlo, ao contrário, metiam a cabeça bem debaixo da água e esfregavam com força as ventas e as barbas, fossando e fungando contra as palmas da mão”.
Já o conto “A Terceira Margem do Rio”, do livro “Primeiras Estórias”, tem no rio a grande fuga do ser humano de si mesmo. Guimarães Rosa foi além das questões sociais para enfocar um problema existencial. Qual pode ser a “terceira margem de um rio”? “Pode ser aquele lado oculto e só nosso. As profundezas subterrâneas do nosso inconsciente. O autor usa o rio como uma grande metáfora da vida e de seu curso, ou seja, o personagem faz uma viagem metafísica em busca do auto-conhecimento”, conclui Therezinha.
“Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água, que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio”.
Caroline Almeida
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