Flutuando no espelho d'água
Braços estendidos, pernas flexionadas, concentração. Músculos a todo vapor. Força! Hoje é dia de wakeboard! Se parecia impossível andar sobre as águas, este esporte é a prova do contrário. Todas as energias parecem, literalmente, ir por água abaixo na luta contra a maré. A adrenalina vai a mil ao conseguir ficar em pé pela primeira vez flutuando numa prancha presa aos pés e sendo puxado por uma corda. Não, nós não estamos falando do Esqui-Aquático.
O wake (apelido do wakeboard) é um esporte aquático em que o praticante é rebocado como no esqui. “A diferença é que no Esqui-aquático você anda de frente para o barco com uma prancha em cada pé. Já no wake, tanto a posição quanto a prancha são mais ao estilo do skate”, comenta o professor Igor Boito, 25 anos. “A brincadeira é pular utilizando a marola (onda) do barco e realizar as manobras”, que se originam em outros esportes. Os invertidos (aéreas) e giros vieram do snowboard, os grabs (feitas com uma mão na prancha) do skate e a primeira prancha era estilo surf. Também existem obstáculos como corrimões (sliders) e rampas.
Em 2004, Boito montou uma escola na Ilha Bela, litoral norte de São Paulo, e deu muito certo. “Me surpreendi com a quantidade de pessoas interessadas, e com aquelas que nem conheciam e aprenderam a andar de primeira, como mães de mais de 40 anos, crianças e até idosos de 70”, comenta. Ele também é criador da Wake Brasil, uma revista direcionada para o esporte que está na quinta edição e pode ser acessada pelo site www.wakebr.com.br. O projeto surgiu quando ele percebeu que existia uma grande dificuldade para encontrar informações sobre a prática. “Desde o primeiro exemplar, lançado em dezembro de 2005, o esporte evoluiu bruscamente, triplicando o número de eventos no primeiro semestre de 2006 e atraindo grandes marcas para esse mercado”, conta.
É uma atividade para pessoas bem ativas, e como não poderia ser diferente, o tombo é inevitável. Mas o wake tem suas vantagens. “Você cai muito, principalmente os menos experientes, mas como é na água não machuca. Às vezes você leva uns tombos que sai girando, coisas que se fosse de skate iria parar no hospital. Pode até ficar um pouco tonto, mas de colete não tem risco de se afogar”, conta o empresário Lucas Dinis, 25 anos. Segundo ele, wakeboarder há seis meses, a primeira coisa a fazer é soltar o manete (peça revestida de borracha presa à extremidade da corda que liga o esportista ao barco). “Conforme perde o ponto de equilíbrio, se você não solta, acaba batendo a cara na água”. O jovem começou a andar por influência do amigo Marcelo Merkel, 30 anos, que pratica wake há 10 anos, além do surf e tudo o que for aquático, “quando caio na água não me machuco”, diz.
Porém, Boito fala que para ele é mais complicado, pois está em um nível que a brincadeira é mais séria, com ondas grandes e saltos altos, portanto é ruim cair muito e freqüentemente, ele se quebra um pouco. “Uma vez atropelei a marola ao invés de pular nela e trinquei a costela, mas mesmo com dor voltei a andar duas semanas depois”. Porém, ele garante que o esporte é seguro. “Já vi filmes com crianças de quatro anos andando e já dei aula para uma de seis. O importante é usar os equipamentos de segurança, colete, capacete para obstáculos, luvas e joelheiras”.
De músculos intactos a comprimidos de analgésico. “O wake faz com que o atleta utilize o corpo de uma maneira diferente, esticando os braços, pousando dos saltos com pernas e joelhos, exercita o abdômen o tempo todo e o pescoço nas manobras”, afirma Boito. A atividade acaba sendo uma academia flutuante que trabalha basicamente tudo, e para os iniciantes as dores vêm com certeza.
A Represa Guarapiranga, com seus 630 Km² de extensão, é o berço do wake no Brasil. Um dos motivos é a localização. Dinis explica que a maioria dos praticantes brasileiros está em São Paulo e a grande quantidade de prédios em volta ajuda a segurar o vento. A condição ideal é quando a água está plana, parecendo um espelho. O rider (esportista) planeja suas manobras com base na marola do barco e com a ajuda do piloto ele calcula a direção e o tamanho da onda necessária para determinado salto ou acrobacia. E para isso as ilhas da represa ajudam bastante. “É engraçado, a água pode estar agitada de um lado e do outro estar lisinha em função desses ‘braços’”. Ao fundo da “Guará” é possível ver os prédios da avenida com as principais empresas, a área comercial mais cara da terra da garoa. “A cidade está a mil por hora e é provável que da janela do escritório alguém veja o pessoal andando de wake. Para nós paulistanos, ter uma represa no meio desse monte de prédios é show de bola”, revela o jovem.
Merkel, que começou a andar na Ilha Bela, revela que as construções irregulares em volta da represa paulista prejudicam a preservação. “Tenho vindo na Guarapiranga há uns seis meses. A água é um pouco suja, é melhor não tomar”. Segundo ele, se encontra de tudo, desde bonecas a pedaços de madeira flutuando.
Lazer
E além de melhorar o físico, andar sobre as águas também mudou a rotina de Dinis. “Você acaba adquirindo esse hábito mais saudável de vida. Acordar cedo, fazer um cooper, não comer tanta besteira. No wake eu encontrei algo que me acalma. É uma das poucas coisas que consegue me tirar da cama sem ficar bravo”.
Para Boito, não é só um esporte, mas uma filosofia de vida. “A diferença de praticar na água é o contato com a natureza, você fica dentro dela! Eu sou viciado na gostosa sensação de boiar e nadar”. O rider comenta que milhares de pessoas praticam todos os anos, em quase todos os estados do Brasil, em lagoas, lagos, represas e praias, porém acabam não se envolvendo mais com a atividade devido à dificuldade de acesso às informações.
“Acho que o principal lado do wake, assim como em outras atividades náuticas, é o lazer. Você pega o final de semana e vai para a represa como se fosse para a praia”, revela Dinis. O esporte aquático que mais cresce no mundo tem se desenvolvido muito desde a década de 90 e em 2000 deu um grande “bum”, tendo nos EUA aproximadamente 4,5 milhões de praticantes, e no Brasil em torno de 200 mil. Segundo Boito, as influências fizeram com que o esporte ficasse cada vez mais style, chegando a ter subdivisões: no wakesurf o praticante surfa na marola de uma lancha sem se segurar em manetes ou cabos. E no wakeskate, ao invés das botas para segurar os pés, usa-se tênis e uma prancha especial com lixa em toda a superfície.
Caroline Almeida
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