sexta-feira, 27 de novembro de 2009

domingo, 4 de outubro de 2009

Flutuando no espelho d'água

Braços estendidos, pernas flexionadas, concentração. Músculos a todo vapor. Força! Hoje é dia de wakeboard! Se parecia impossível andar sobre as águas, este esporte é a prova do contrário. Todas as energias parecem, literalmente, ir por água abaixo na luta contra a maré. A adrenalina vai a mil ao conseguir ficar em pé pela primeira vez flutuando numa prancha presa aos pés e sendo puxado por uma corda. Não, nós não estamos falando do Esqui-Aquático.
O wake (apelido do wakeboard) é um esporte aquático em que o praticante é rebocado como no esqui. “A diferença é que no Esqui-aquático você anda de frente para o barco com uma prancha em cada pé. Já no wake, tanto a posição quanto a prancha são mais ao estilo do skate”, comenta o professor Igor Boito, 25 anos. “A brincadeira é pular utilizando a marola (onda) do barco e realizar as manobras”, que se originam em outros esportes. Os invertidos (aéreas) e giros vieram do snowboard, os grabs (feitas com uma mão na prancha) do skate e a primeira prancha era estilo surf. Também existem obstáculos como corrimões (sliders) e rampas.
Em 2004, Boito montou uma escola na Ilha Bela, litoral norte de São Paulo, e deu muito certo. “Me surpreendi com a quantidade de pessoas interessadas, e com aquelas que nem conheciam e aprenderam a andar de primeira, como mães de mais de 40 anos, crianças e até idosos de 70”, comenta. Ele também é criador da Wake Brasil, uma revista direcionada para o esporte que está na quinta edição e pode ser acessada pelo site www.wakebr.com.br. O projeto surgiu quando ele percebeu que existia uma grande dificuldade para encontrar informações sobre a prática. “Desde o primeiro exemplar, lançado em dezembro de 2005, o esporte evoluiu bruscamente, triplicando o número de eventos no primeiro semestre de 2006 e atraindo grandes marcas para esse mercado”, conta.
É uma atividade para pessoas bem ativas, e como não poderia ser diferente, o tombo é inevitável. Mas o wake tem suas vantagens. “Você cai muito, principalmente os menos experientes, mas como é na água não machuca. Às vezes você leva uns tombos que sai girando, coisas que se fosse de skate iria parar no hospital. Pode até ficar um pouco tonto, mas de colete não tem risco de se afogar”, conta o empresário Lucas Dinis, 25 anos. Segundo ele, wakeboarder há seis meses, a primeira coisa a fazer é soltar o manete (peça revestida de borracha presa à extremidade da corda que liga o esportista ao barco). “Conforme perde o ponto de equilíbrio, se você não solta, acaba batendo a cara na água”. O jovem começou a andar por influência do amigo Marcelo Merkel, 30 anos, que pratica wake há 10 anos, além do surf e tudo o que for aquático, “quando caio na água não me machuco”, diz.
Porém, Boito fala que para ele é mais complicado, pois está em um nível que a brincadeira é mais séria, com ondas grandes e saltos altos, portanto é ruim cair muito e freqüentemente, ele se quebra um pouco. “Uma vez atropelei a marola ao invés de pular nela e trinquei a costela, mas mesmo com dor voltei a andar duas semanas depois”. Porém, ele garante que o esporte é seguro. “Já vi filmes com crianças de quatro anos andando e já dei aula para uma de seis. O importante é usar os equipamentos de segurança, colete, capacete para obstáculos, luvas e joelheiras”.
De músculos intactos a comprimidos de analgésico. “O wake faz com que o atleta utilize o corpo de uma maneira diferente, esticando os braços, pousando dos saltos com pernas e joelhos, exercita o abdômen o tempo todo e o pescoço nas manobras”, afirma Boito. A atividade acaba sendo uma academia flutuante que trabalha basicamente tudo, e para os iniciantes as dores vêm com certeza.
A Represa Guarapiranga, com seus 630 Km² de extensão, é o berço do wake no Brasil. Um dos motivos é a localização. Dinis explica que a maioria dos praticantes brasileiros está em São Paulo e a grande quantidade de prédios em volta ajuda a segurar o vento. A condição ideal é quando a água está plana, parecendo um espelho. O rider (esportista) planeja suas manobras com base na marola do barco e com a ajuda do piloto ele calcula a direção e o tamanho da onda necessária para determinado salto ou acrobacia. E para isso as ilhas da represa ajudam bastante. “É engraçado, a água pode estar agitada de um lado e do outro estar lisinha em função desses ‘braços’”. Ao fundo da “Guará” é possível ver os prédios da avenida com as principais empresas, a área comercial mais cara da terra da garoa. “A cidade está a mil por hora e é provável que da janela do escritório alguém veja o pessoal andando de wake. Para nós paulistanos, ter uma represa no meio desse monte de prédios é show de bola”, revela o jovem.
Merkel, que começou a andar na Ilha Bela, revela que as construções irregulares em volta da represa paulista prejudicam a preservação. “Tenho vindo na Guarapiranga há uns seis meses. A água é um pouco suja, é melhor não tomar”. Segundo ele, se encontra de tudo, desde bonecas a pedaços de madeira flutuando.

Lazer
E além de melhorar o físico, andar sobre as águas também mudou a rotina de Dinis. “Você acaba adquirindo esse hábito mais saudável de vida. Acordar cedo, fazer um cooper, não comer tanta besteira. No wake eu encontrei algo que me acalma. É uma das poucas coisas que consegue me tirar da cama sem ficar bravo”.
Para Boito, não é só um esporte, mas uma filosofia de vida. “A diferença de praticar na água é o contato com a natureza, você fica dentro dela! Eu sou viciado na gostosa sensação de boiar e nadar”. O rider comenta que milhares de pessoas praticam todos os anos, em quase todos os estados do Brasil, em lagoas, lagos, represas e praias, porém acabam não se envolvendo mais com a atividade devido à dificuldade de acesso às informações.
“Acho que o principal lado do wake, assim como em outras atividades náuticas, é o lazer. Você pega o final de semana e vai para a represa como se fosse para a praia”, revela Dinis. O esporte aquático que mais cresce no mundo tem se desenvolvido muito desde a década de 90 e em 2000 deu um grande “bum”, tendo nos EUA aproximadamente 4,5 milhões de praticantes, e no Brasil em torno de 200 mil. Segundo Boito, as influências fizeram com que o esporte ficasse cada vez mais style, chegando a ter subdivisões: no wakesurf o praticante surfa na marola de uma lancha sem se segurar em manetes ou cabos. E no wakeskate, ao invés das botas para segurar os pés, usa-se tênis e uma prancha especial com lixa em toda a superfície.

Caroline Almeida
Fontes naturais de beleza e poesia

“Andamos por aí vendo o ribeiro, o qual é de muita água e muito boa”. Na carta ao Rei D. Manuel, Pero Vaz de Caminha descreve as belezas da terra em que tinha chegado há pouco. Nem ouro, nem prata, ou qualquer outro metal. O encantamento de Caminha provinha de outras fontes de riqueza. “Águas são muitas; infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem! (...) Hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500”. Embora escrita por um português, essa é a primeira literatura que descreve a abundância das águas na então chamada Ilha de Vera Cruz.

E os escritores brasileiros falaram das águas em vários momentos, ora elogiando a fartura, ora discorrendo sobre a escassez e ora fazendo uma crítica social. O Brasil exuberante foi detalhado durante o período literário chamado Romantismo, no século XIX. Segundo a professora Therezinha da Silva Fernandes, como a Proclamação da Independência havia acabado de acontecer, a Literatura brasileira precisava mostrar para o mundo um país livre e abundante com seus rios e cachoeiras. No livro “O Guarani”, a região da Serra dos Órgãos, Rio de Janeiro, foi escolhida por José de Alencar e o rio Paquequer aparece como fator encantador da paisagem tropical brasileira. “Lança-se rápido sobre o seu leito, e atravessa as florestas como o tapir, espumando, deixando o pêlo esparso pelas pontas do rochedo, e enchendo a solidão com o estampido de sua carreira. De repente, falta-lhe o espaço, foge-lhe a terra; o soberbo rio recua um momento para concentrar suas forças, e precipita-se de um só arremesso, como o tigre sobre a presa”.
Já em “Macunaíma”, Mário de Andrade faz um uso diferente da natureza brasileira. Agora é uma visão mais crítica que vai aparecer. “A água tem uma função mágica. O personagem Macunaíma sai da região amazônica, depois de ter nascido “um índio retinto” e vem para São Paulo, a civilização. Ao passar pela água mágica torna-se branco”. A professora de literatura conta que essa é a grande metáfora da formação do povo brasileiro. “Macunaíma tem em si mesmo as três etnias da formação do nosso povo: o índio, o negro e o branco”.
Mas assim como a fartura é descrita, também há a crítica social em “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos. “Como outros autores da época, ele pretendia fazer a denúncia dos problemas nordestinos, incluindo a seca, que mais do que um fator de clima, é um caso de vontade política, pois a ajuda do poder público aos flagelados nunca chegou até eles, assim como uma solução definitiva. Não é nada diferente do que acontece hoje, infelizmente”, afirma Therezinha.
São Paulo também é retratado com crítica às condições de vida da sociedade. A professora conta que no livro “O cortiço”, Aluísio de Azevedo tem a intenção de mostrar o Determinismo, isto é, quer evidenciar que o homem tem seu comportamento determinado pelo meio em que vive, pelo momento histórico e pela carga genética que traz. “Nessa obra, com tantas pessoas vivendo aglomeradas, servindo-se de uma única “bica” (torneira) para a higiene pessoal e também para os afazeres domésticos, cria-se um ambiente promíscuo, que vai refletir no comportamento promíscuo dos habitantes do cortiço”.
“Daí a pouco, em volta das bicas era um zunzum crescente; uma aglomeração tumultuosa de machos e fêmeas. Uns, após outros, lavavam a cara, incomodamente, debaixo do fio de água que escorria da altura de uns cinco palmos. O chão inundava-se. As mulheres precisavam já prender as saias entre as coxas para não as molhar; via-se-lhes a tostada nudez dos braços e do pescoço, que elas despiam suspendendo o cabelo todo para o alto do casco. Os homens, esses não se preocupavam em não molhar o pêlo, ao contrário, metiam a cabeça bem debaixo da água e esfregavam com força as ventas e as barbas, fossando e fungando contra as palmas da mão”.
Já o conto “A Terceira Margem do Rio”, do livro “Primeiras Estórias”, tem no rio a grande fuga do ser humano de si mesmo. Guimarães Rosa foi além das questões sociais para enfocar um problema existencial. Qual pode ser a “terceira margem de um rio”? “Pode ser aquele lado oculto e só nosso. As profundezas subterrâneas do nosso inconsciente. O autor usa o rio como uma grande metáfora da vida e de seu curso, ou seja, o personagem faz uma viagem metafísica em busca do auto-conhecimento”, conclui Therezinha.
“Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água, que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio”.

Caroline Almeida

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

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